A vida (na terra) sem celular!

A vida (na terra) sem celular!

A tragédia aconteceu na sexta, no município de São Paulo, quando olhei para meu telefone e ele era apenas uma tela preta com uma maçãzinha que piscava eternamente. Ia e voltava, ia e voltava, só isso.

Qualquer pessoa viciada em 3g, Instagram, checar redes sociais a cada cinco segundos com muita ansiedade e não anotar nada no papel, pode imaginar o que é ficar sem o celular do nada, em horário comercial, com um fim de semana pra combinar, uma mudança pra fazer, trabalho pra entregar. Dói lembrar.

O trauma todo durou cinco dias. Parece pouco, mas eu realmente tinha esquecido como se faz pra viver sem depender de uma telinha touchscreen maldita, com uma bateria porcaria que me deixa na mão toda hora.

Em cinco dias, fui forçada a conhecer um novo mundo, que na verdade nada mais é do que um antigo mundo. Essas são as aventuras mais especiais e exóticas que me aconteceram nessa vida louca e paleolítica que levei nos últimos dias:
Existe uma coisa chamada papel: lembra dele? Claro, você lê a Gloss que chega nas bancas, eu espero! Ah, tem livros em casa, eu também espero. E aprendeu a escrever em um papel, além de colecionar caderninhos lindos toda vez que entra em uma papelaria. Mas o papel faz coisas milagrosas para as pessoas, ele pode servir para você anotar lembretes, telefones, endereço da balada e o ônibus certo pra chegar em algum lugar. E quando chega lá, pode amassar e jogar no lixo, pode pedir uma caneta emprestada e anotar algo novo… Mas talvez seja quase impossível encontrar alguém que tenha uma caneta na bolsa, esquece!

Pontualidade: Já imaginou marcar um encontro com uma amiga em um bar, na sexta a noite, anotar o endereço em um papel e combinar o horário que vão se encontrar na porta? Pois é, eu juro que a gente consegue chegar até um lugar que combinamos sem ter que mandar 18 “whatsapps” dizendo “tô no taxi”, “tá foda o trânsito”, “já pegou mesa?”, “tá cheio?”, “o Fabinho tá aí?”. É só marcar, se dirigir ao local, chegar e conversar. E a gente só descobre isso quando é obrigada a fazer dessa maneira, a mais simples, a mais normal.

A boa ansiedade: Estou com você irmã, também sinto esse vazio enorme causado pela modernidade, que me faz checar tudo a cada três segundos, ver se a pessoa que mandei mensagem já leu, se ela entrou e ignorou, pensar que sou péssima porque não chegou nenhum email na última meia hora, me sentir feia porque minha foto teve poucos likes. Aaahhhhh!!! Chegaaaa!!!!! No mundo sem celular, ansiedade trabalha junto com a paciência. Faça tudo o que tiver para fazer na rua e quando chegar em casa, vai sentar e ler os emails, responder com calma, vai ligar para as pessoas do telefone fixo, mas só para as que tiver assunto mesmo, não para 18 ao mesmo tempo só para falar “E aí…”.

Economia de tempo e diminuição do risco de vida: Sem papo furado com amigas do “E aí…”, sem checar 35 vezes se o paquera entrou no Facebook, sem ler tweets das pessoas reclamando do trânsito travado pela chuva, você faz tudo o que precisa, por obrigação! Ir até o supermercado é rápido e sem riscos de atropelamento, pois você olha para a rua e até consegue ver se um carro está vindo. Um choque, não? Eu também não lembrava que existe isso de olhar pra rua, muito menos que existe fazer as coisas que preciso e partir pra uma próxima, sem perder 40 minutos dando tapi

Conhecer o mundo: Você finalmente vê o que tem na rua, qual é o caminho, se está dia ou noite, se sua amiga cortou o cabelo, ou até se sua amiga está ali na sua frente – o que muitas vezes nem conseguimos reparar, abduzidas por aplicativos. Do nada, começa a respeitar as pessoas e ouvir o que elas falam, começa a perceber que também consegue conversar, sem ficar se mandando recado pelo Instagram, sentadas na mesma mesa. E de brinde ainda pode reparar em um cara gato da balada e fazer contato, coisa que jamais aconteceria se estivesse vivendo a balada da fofa que ta frenética bem longe, mas que posta cada minuto, pra gente como você, poder acompanhar.

Não ser imã de amigas miadas: Saiu de casa, começou a aventura. Sorte de quem te chamou primeiro, por Inbox ou ligou na sua casa. E a partir daí você usa a intuição para ir de um lugar para o outro, topar uma festa maluca, encontrar alguém inusitado no bar e sentar para perguntar como está a vida. Mas o melhor de tudo é que consegue curtir algumas horinhas sem ficar trocando Whatsapp com todos que estão em outros lugares, planejando ir, ou muito pior, dando direcionadas pra sua amiga miada que estava em uma festa chata decidir em duas horas se sai de lá e te encontra ou não. Cruzes!

Pessoas piores que você: Quando acabam seus dias de hippie louca, que vai onde a vida levar, você se apresenta na loja com uma ordem de serviço, seu coração bate mais forte, sabendo que em breve vai poder mandar mensagem para todos os amigos falando sobre nada, só porque não consegue ficar sem falar com alguém mais de 20 minutos. E justo quando começa a se sentir mal, uma viciadinha de merda, ouve as outras pessoas da loja batendo palminhas. Elas dão gritinho, elas estão alucinadas, fazem amizade umas com as outras, perguntam a quanto tempo são usuárias daquele celular, e que outros produtos tecnológicos da marca usam. Parece uma maternidade, com pais vendo os bebês pela primeiras vez, todos se emocionam, se parabenizam por ter aquele aparelhinho de novo. Se despedem e você realmente percebe, que nem era tão louca assim. Ufa!

E nem preciso dizer, depois de tudo isso, coloquei meu chip dentro desse traste e nunca mais olhei para frente, nunca mais foquei em nada que tinha que focar, nunca mais ouvi o que um amigo dizia no carro. E percebi que minha lista não funciona para gente louca e viciada como nós, que Jah tenha piedade dessa gente errada e doente que somos.

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